Assistindo ao filme Elmer Gantry1, "Entre Deus e o Diabo", estrelado por Burt Lancaster e Jean Simmons, não pude deixar de me impressionar com a estarrecedora descrição e semelhança com o movimento reavivalista evangélico americano. Há de tudo um pouco: falsos e eloquentes sermões, e técnicas para atrair, comover e impactar a platéia. De certa forma, muitos grupos religiosos da atualidade se baseiam, ou muito bem poderiam ter se baseado, em cenas do filme. Seria o caso da realidade imitando a ficção.
É claro que o filme tem um toque caricato, farsesco, como o de uma sátira, mas pela impressionante semelhança com os movimentos evangélicos atuais (os neopentecostais e movimentos da fé), não é difícil reconhecer também a caricaturização das quais muitas igrejas tornaram-se reféns. Como na vida real, no filme há de tudo um pouco: mercantilismo, charlatanismo, pragmatismo, exibicionismo, megalômanos a exalar o fétido odor diabólico.O púlpito é um palco. Os ministradores, atores. E a igreja, uma assistência patética.
Há apelos, comoção, cartaxe, latidos, gritos, convulsão, e tudo o que de pior o sincretismo tem produzido nas últimas décadas, numa espécie de "orgia" espiritual. Em muitos momentos, tem-se a impressão de estar em um culto na igreja evangélica mais próxima, na desordem sonora, na metalinguagem espaventosa, nas encenações abusivas e licenciosas, buscando resgatar através do sentimentalismo e da banalização um "novo cristianismo", explosivo em sua profusão cênica, porém, burlesco, deformado e inócuo em seu caráter religioso.
Abriu-se mão do princípio para se valorizar apenas os meios, desde que o fim se tornasse exequível e imediático. No fim das contas, é um show como outro qualquer, onde se tem de mobilizar a platéia, criar empatia, fazer valer cada centavo gasto e ganho, iludi-los com uma espécie de salvação onde Cristo não está evidente, nem é-se possível encontrá-lo ou distingui-lo na mensagem, mesmo entre aparente piedade, mesmo que na ingenuidade.
Elmer Gantry é um ambulante, uma espécie de caixeiro viajante, que lança a sua lábia sobre os incautos, vendendo produtos imprestáveis por preços extorsivos. É um bêbado, mulherengo, mentiroso e fanfarrão, que, da noite para o dia, se vê alçado ao posto de pastor; de vendedor ambulante fracassado a pastor itinerante de sucesso.
A interpretação histriônica de B. Lancaster confere um ar de comicidade e zombaria ao seu personagem, capaz de rir-se de si mesmo e da sua imoralidade. É um homem sem escrúpulos, que vê naquela oportunidade a chance de fugir de sua vida miserável. Não há como não vê-lo como um bufão,que em sua tolice consegue enganar uma multidão de tolos ainda maiores do que ele. Burt consegue dar uma áurea de simpatia ao personagem, e, em muitos momentos, é possível acreditar que todo o seu empenho não passou de uma diversão, uma brincadeira ingênua, na qual sequer acreditou. Mas à medida que os "frutos" vão surgindo: conversões em massas (os números são meticulosamente citados), o volume de ofertas, o auxílio de igrejas e organismos religiosos, e os convites para novas "campanhas" em cidades grandes fazem aumentar substancialmente a fama da "tenda evangelística", Gantry começa a acreditar no seu poder de mobilizar milhões de pessoas e dinheiro. Ele crê literalmente na sua força.
A interpretação histriônica de B. Lancaster confere um ar de comicidade e zombaria ao seu personagem, capaz de rir-se de si mesmo e da sua imoralidade. É um homem sem escrúpulos, que vê naquela oportunidade a chance de fugir de sua vida miserável. Não há como não vê-lo como um bufão,que em sua tolice consegue enganar uma multidão de tolos ainda maiores do que ele. Burt consegue dar uma áurea de simpatia ao personagem, e, em muitos momentos, é possível acreditar que todo o seu empenho não passou de uma diversão, uma brincadeira ingênua, na qual sequer acreditou. Mas à medida que os "frutos" vão surgindo: conversões em massas (os números são meticulosamente citados), o volume de ofertas, o auxílio de igrejas e organismos religiosos, e os convites para novas "campanhas" em cidades grandes fazem aumentar substancialmente a fama da "tenda evangelística", Gantry começa a acreditar no seu poder de mobilizar milhões de pessoas e dinheiro. Ele crê literalmente na sua força.
Uma das frases mais emblemáticas é quando Sharon diz ao Sr.Lefferts, o qual se recusava a ajoelhar-se para uma oração (um jornalista ateu que acompanhava a "tenda" enquanto fazia pesquisas para uma futura reportagem sobre o movimento.O auter-ego de Sinclair Lewis): Você pode não acreditar em Deus, mas ele acredita em você! (citação livre, não literal do texto). Demonstrando de que forma o humanismo consegue corromper os valores cristãos, invertendo a ordem ao fazer Deus ter fé no homem, quando somos nós que devemos crer nEle, conforme ordenam as Escrituras.
O filme é uma crítica ácida ao evangelicalismo emergente americano (o livro é de 1926), permeado pela hipocrisia, a desfarçatez e a teatralidade, capaz de produzir a tolice e o engano ao invés de homens salvos e servos verdadeiros.
Voltando ao filme, Lefferts, o jornalista, diz em sua matéria de capa do jornal Zenith sobre a "tenda": O que é uma caravana? Uma igreja? Uma religião? Ou um circo, onde o espetáculo são as atrações bizarras? (novamente, citação livre, não literal).
Ainda que o mundo não seja capaz de julgar a igreja, nem o possa fazer, por que rejeitamos os alertas e persistimos em blasfemar o nome de Cristo entre os incrédulos? (Rm 2.24).
Porém, ao final, cumprir-se-á o alerta de Cristo: "Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade" (Mt 7.19-23).
Porque o homem prudente escuta as Suas palavras, não o cainhar do lobos.
Nota: 1- Elmer Gantry/Entre Deus e o Diabo (título em português)
Diretor: Richard Brooks, EUA, 1960
Elenco: Burt Lancaster (ganhador do Oscar de ator principal), Jean Simmons, Arthur Kennedy, Dean Jagger, Shirley Jones, Edward Andrews, Patti Page, John McIntire, Rex Ingram, Hugh Marlowe, Philip Ober
Roteiro: Richard Brooks
Baseado na novela Elmer Gentry, de Sinclair Lewis (o primeiro escritor americano laureado com o prêmio Nobel, o qual declinou receber)
Música: Andre Previn
Produção: United Artists
Cor:145 min.








