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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sobre Amor e Ódio
















Por Jorge Fernandes Isah



Em virtude dos debates nos posts anteriores com o estimado e dileto irmão e amigo Natan de Oliveira, do blog Reflexões Reformadas, decidi-me, ao invés de respondê-lo na seção de comentários, fazê-lo em forma de artigos [1]. Em muitos detalhes concordamos, mas, no geral, há desacordo quanto às conclusões.

É preciso esclarecer que esta tentativa não explicará todos os pontos, nem mesmo é exaustiva, em decorrência da dificuldade do tema, e da minha própria incapacidade de compreendê-lo totalmente. Mas como a minha ignorância não é desculpa para não buscar entendimento no texto bíblico, oro ao Espírito Santo que me instrua naquilo que me é impossível compreender naturalmente, pois, “para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” [Mc 10.27].

Primeiramente, analisarei o texto apresentado de Efésios 2.3:
"Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne e dos pensamentos: e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também".


Ao que o Natan concluiu: “Assim neste primeiro exemplo acima, Deus sentia ira (ódio) por mim quando eu ainda não era nascido de novo, mas ao mesmo tempo sendo eu um escolhido seu desde a eternidade, era também ao mesmo tempo, fruto do seu amor salvífico, uma vez que ele já conduzia a história, inclusive o pecado, para me trazer salvação no tempo certo” [2].

Faz-se necessário analisar os termos:

1) Ódio: Inimizade perpétua [Sl 11.5, Ez 35.5]. Forte oposição ao amor [Lc 16.13, Jo 15.18-19]. Aversão intensa [Ml 1.3; Rm 9.13].

2) Ira: Furor, indignação [Jr 21.5, Lm 4.11, Ez 7.8, Jo 3.36, Rm 1.18, Ap 19.15]. Ato de castigar [Jr 30.14, 2Ts 1.9]. Vingança [Dt 32.35, Sl 58.10, Is 34.8, Rm 12.19]. Cólera [Sl 38.3, Na 1.6].

Aparentemente os conceitos de ódio e ira estão muito próximos. Ambos indicam uma oposição ao amor, mas nem sempre. O ódio me parece mais um estado, uma condição, do que um ato, uma emoção, como a ira tende-se a assemelhar.

A ira pode ser mesmo uma conseqüência do ódio, uma forma dele se manifestar, mas também pode se apresentar, a princípio, como decorrente do amor, na forma de disciplina, de correção.

O ódio estaria mais para uma espécie de aversão absoluta, algo duradouro e contínuo, ininterrupto. O ódio seria antagônico ao amor, enquanto a ira seria antagônica à tolerância, à indulgência. Por exemplo, a Bíblia afirma que o ódio de satanás por Deus não terá fim, assim como o ódio do ímpio por Cristo e Seu povo não terminará nem mesmo quando estiverem cumprindo a pena eterna no Inferno. Ao passo que, por exemplo, Paulo nos exorta a irar, e não pecar; para que “não se ponha o sol sobre a vossa ira” [Ef 4.26]; dando-nos a entender que a ira é momentânea, circunstancial, incidental, o que me leva à conclusão de que ódio e ira são matérias diferentes, ainda que possam se relacionar. É claro que estamos a falar da relação do homem e suas manifestações. Mas, e Deus? Como o ódio e a ira podem se relacionar com a Sua natureza, do ponto de vista bíblico?

1) Temos de entender que Deus não está no tempo; Ele age no tempo, e não segundo o tempo ou conforme o seu desenrolar, pois “conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras” [At 15.18]; as quais são os frutos, o resultado da Sua santa vontade.
2) A imutabilidade de Deus jamais poderá implicar em incoerência, contradição, porque isso resultará na desordem do universo, e sabemos que "Deus não é Deus de confusão" [1Co 14.33].

Efésios 2 nos diz que:

1) Deus nos vivificou quando ainda estávamos mortos em ofensas e pecados [v.1]. 2) Éramos filhos da desobediência e andávamos no curso deste mundo, segundo satanás [v.2]. 3) Éramos filhos da ira por andarmos na carne, fazendo a sua vontade, como escravos do pecado [v.3]. 4) Novamente, o apóstolo afirma que aprouve a Deus nos vivificar juntamente com Cristo, por sua misericórdia, “pelo seu muito amor com que nos amou estando nós ainda mortos em nossas ofensas[v.4-5]. 5) Deus “nos ressuscitou juntamente com ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus” [v.6]. 6) Para mostrar a sua graça e benignidade para com os eleitos, nos séculos vindouros [v.7].

Paulo nos faz ver que há uma idéia de tempo, mas também uma idéia intemporal, que transcende o próprio tempo. Há a concepção de eternidade, de que as coisas na mente de Deus não se passam como nas nossas; de que Ele estabeleceu tudo muito antes do tempo existir; e de que, de fato, elas já existem porque acontecerão inevitável e inexoravelmente, não podendo ser frustradas nem impedidas por nada ou ninguém de ocorrerem.

É o que está dito: quando Deus nos vivificou com Cristo; nos ressuscitou juntamente com ele; nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo. O apóstolo não utilizou verbos no futuro, mas os utilizou no passado: vivificou, ressuscitou, assentou. O Senhor que não está contido no tempo, e que é o criador do tempo, já realizou todas essas coisas para com os eleitos, os Seus filhos adotivos, mesmo aqueles que sequer nasceram, e mesmo os que ainda terão seus pais e avós nascidos num futuro distante.

A obra de Cristo já está consumada eternamente, e podemos dizer que ela foi realizada eternamente, por causa da imutabilidade divina que não poderia ser alterada, nem tomaria outro rumo, mas culminaria infalivelmente no sacrifício do Senhor na cruz do Calvário. É o que Paulo assevera: “sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” [Rm 6.6].

Não há dúvidas de que a nossa salvação é eterna.

Porém Paulo se utiliza da linguagem temporal para indicar o estágio em que estávamos antes da conversão: éramos filhos da desobediência; filhos da ira; andávamos na carne, satisfazendo-a e a satanás; estávamos mortos em ofensas e pecados. Essa é a nossa condição no tempo, na nossa relação com o tempo, o pecado e o mundo [significando toda a criação divina]. Mas também indicando a forma maravilhosa como o Senhor nos resgatou da perdição e condenação.

Partindo-se deste texto bíblico é presumível que:
1) Deus odeia eternamente o pecado. 2) Deus odeia eternamente o pecador que nunca se arrependerá dos seus pecados, terá o coração endurecido, e jamais foi alvo da Sua graça salvadora. 3) O pecador não resgatado por Cristo será alvo da ira eterna de Deus, como conseqüência da Sua justiça, que pune o pecador por causa dos seus pecados, da sua desobediência, e da inimizade perpétua para com Deus. Porque Ele é justo e justificador apenas daquele que tem fé em Jesus [Rm 3.26].

Podemos ver que há diferença entre o ódio e a ira. A ira de Deus pode cair mesmo sobre o eleito, como um castigo, como uma indignação, como conseqüência do pecado, no tempo. Esse me parece o caso de Davi. Após adulterar com a mulher de Urias [2Sm 11.4], assassiná-lo [2Sm 11.14-17 (a perversão de Davi foi tamanha que o próprio Urias levou a sua sentença de morte ao comandante das tropas de Israel, Joabe)], e desposar Betseba [Sm 11.27]; alguns castigos sobrevieram-lhe da parte de Deus: 1) O seu filho, fruto do adultério com Betseba, morreu [2Sm 12.18]. 2) Amnon, filho de Davi, cometeu incesto com sua irmã, Tamar [2Sm 13.14]. 3) Absalão, filho de Davi, matou Amnon, seu irmão, por causa de Tamar, sua irmã [2Sm 13.29]. 4) Davi foi obrigado a fugir de Jerusalém, escapando da morte, por causa da rebelião de Absalão, seu filho [2Sm 15.16]. 5) Absalão possuiu, em afronta, todas as concubinas do seu pai, Davi, diante de todo o Israel [2Sm 16.22].

Outras coisas mais aconteceram a Davi como castigo por seus pecados, provavelmente a que mais lhe doeu o coração, foi ser impedido de construir o Templo. Todas como conseqüências do juízo de Deus sobre Davi, os quais foram profetizados por Natã: “Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste... Eis que suscitarei da tua própria casa o mal sobre ti, e tomarei tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres perante este sol... também o filho que te nasceu certamente morrerá” [2Sm 12.10, 11, 14].

O Senhor perdoou o pecado de Davi, contudo, a Sua ira disciplinadora, que tem como um dos objetivos o arrependimento e a santificação, permaneceu sobre ele na forma de castigo, de punição temporal [2Sm 12.13].

A minha conclusão é: 1) Ódio pode parecer com ira, mas são coisas diferentes. 2) O ódio de Deus pelo pecado e os pecadores recalcitrantes (os réprobos, irreconciliáveis) é eterno. 3) A ira de Deus sobre o pecado e os pecadores obstinados é eterna, e se manifestará plenamente no Dia da Ira, quando os réprobos forem lançados no Inferno juntamente com satanás e seus anjos. 4) A ira de Deus sobre os eleitos é temporal, no sentido de ser uma manifestação educativa, que o levará, primeiramente, à conversão, e, posteriormente, à santificação. 5) Portanto, Deus não ama e odeia ao mesmo tempo os réprobos, porque Ele apenas os odeia, e não os ama. 6) Deus não ama e odeia os eleitos, porque Ele apenas os ama, ainda que lance sobre nossas desobediências o justo castigo.

Fica ainda a questão da graça comum sobre os réprobos, que tentarei expor em outro post [3].

Apenas para não deixar passar em branco, acredito que a graça comum sobre os inimigos eternos de Deus se dá exatamente por sua misericórdia e amor para com os eleitos. Ou seja, os vasos da ira, preparados para a perdição, existem para que também Deus “desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou” [Rm 9.22-23]. Eles existem para a glória de Deus, mas também para que o Seu amor, graça e misericórdia por nós ficasse notória, evidente.

Alguns exemplos que favorecem essa idéia: 1) Deus nos pede para orar pelos homens, reis e eminentes a fim de que “tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade” [1Tm 2.1-2]. Isso quer dizer que, muito provavelmente, se Deus não operasse a restrição aos ímpios, os crentes seriam destruídos. 2) Os crentes serão beneficiados com o que é produzido pelos ímpios, como uma dádiva de Deus para os Seus filhos: a tecnologia, os avanços da medicina, os tribunais de justiça, a arte, etc; como a ação de Deus sobre os reprovados a fim de que pratiquem o bem para com os eleitos; porque toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto” [Tg 1.17].

Não é o que diz o Salmo 136? Deus feriu o Egito nos seus primogênitos; “porque a sua benignidade dura para sempre” [v.10]. Sendo que a sua benignidade era para com os egípcios ou para com Israel?

Porque “tirou a Israel do meio deles” [v.11]; e fez passar Israel pelo meio do Mar Vermelho, mas derrubou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho [v.13-15]; “aquele que feriu os grandes reis [v.17]; e matou reis famosos... Sion, rei dos amorreus... Ogue, rei de Basã... E deu a terra deles em herança a Israel seu servo; porque a sua benignidade dura para sempre” [v.17-22].

Não há dúvida de que os réprobos cumprem finalidades específicas. Como já disse, foram criados para manifestar a ira de Deus [Rm 2.4, 9.22], e para que fosse conhecido o Seu amor pelos eleitos, e a eles revelada a Sua graça e misericórdia, assim como a Sua glória.
De outra forma, por que Cristo diria: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” [Jo 15.13]?

Ou será que Ele morreu por todos como querem arminianos e universalistas?

Ou ao invés disso, “Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós” [Rm 5.8]?

Bem, essa é outra história...

Notas: [1]Pretendo responder às inquirições do Natan em três postagens distintas, a fim de que, tanto eu como ele, possamos pormenorizar nossas convicções. [2]Para ler todo o comentário do Natan click em Oliveira . [3]Quanto à utilização de Jo 3.36 como argumento para validar o amor e ódio simultâneos, não há a menor possibilidade, porque a questão debatida por João resume-se a relação entre fé e vida eterna, ou seja, aquele que crê em Cristo terá a vida eterna, e aquele que não crer em Cristo não terá a vida eterna, mas a ira de Deus permanece sobre ele. A ira de Deus está sobre aquele que não crê e que não terá a vida eterna, o réprobo. Portanto, ele não serve como argumento para a nossa disputa que é sobre amor e ódio, ainda que ela favoreça mais ao meu ponto de vista do que ao do Natan.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

AMOR OU DESDÉM?































Por Jorge Fernandes





Tem-se falado muito sobre amor ultimamente. Parece haver uma onda de amor, quase um modismo acidental, pode-se dizer. Haja vista ler definições para todos os gostos, especialmente as que vão de encontro ao coração impenitente e irregenerado. Uns acham que o amor de Deus torna-O completamente tolerante para com o pecado. Outros, que Deus não tolera o pecado, mas é permissivo com o iníquo. Há os que para justificar suas transgressões excluem o inferno e a possibilidade de punição divina. E mesmo aqueles que consideram o pecado como ficção, ou uma forma de opressão psíquica e social de domínio dos mais poderosos (seja lá o que isso representa. Fica a pergunta: a opressão do poder é também uma fantasia?). Por tabela, elimina-se o diabo e sua influência perversa, os quais passam a ser algo meramente simbólico, referindo-se a dualidade, àquilo que o homem ainda possui de mal em sua natureza [a contrapor-se ao bondoso], mas que será progressivamente extirpado com o passar de milhões de anos de processo evolutivo, físico e espiritual; o qual ninguém saberá ao certo se ocorrerá; e se ocorrer [apenas como hipótese improvável], em que resultará, face à incontrolabilidade naturalista?



Todas essas tentativas de explicar a natureza humana ou de justificá-la, resumem-se a:

1) O desprezo à soberania e santidade de Deus.

2) O medo da condenação.

3) O reflexo da carnalidade e impiedade inerentes à natureza humana.

4) A rebeldia insana em se fazer senhor de si mesmo, quando se é apenas um escravo aprisionado em suas amargas e imorais ilusões.

5) O desejo inconsciente de autodestruição.



Escrevi alguns textos sobre essas questões e não retornarei a eles. Quero ater-me a algo ainda não abordado especificamente [mesmo que tenha sido implicitado]: aquele que se entrega ao pecado ama? É possível amar e ainda assim pecar contra quem se diz ter afeição?



O amor pressupõe comprometimento, responsabilidade, empenho ao sujeito ou objeto amado. Não há lugar para o desleixo, a obstinação pelo erro, a queda reincidente e sistemática. Quem não ama é diligente, zeloso para com a ofensa, seja a Deus ou ao próximo. No Cristianismo, ele é um violador contumaz da Lei Moral. E se transgride a Lei Moral, é um sedicioso que incita ou participa da revolta contra Deus. Em relação ao próximo, está pouco se lixando à descrição de Paulo: “o amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” [1Co 13.4-7- grifo meu].



Podemos dizer que esse é o padrão do amor cristão da maioria que se diz cristão? Isto nos leva a duas conclusões:

1) Paulo está errado ao definir o amor como o ato de não se buscar os seus interesses e, ainda por cima, sofrer por quem se ama.

2) Paulo está certo; e a maioria dos crentes não sabe o que é amar verdadeiramente.



Fiz um pequeno estudo sobre o amor de Deus, com base em Marcos 10.17-27, intitulado O Jovem Rico.



E quanto ao amor humano?



Novamente, Paulo nos diz: “não sejais sábios em vós mesmos” [Rm 12.16], o que vale dizer que não há sabedoria inerente ao homem, de que ele é um tolo por vocação, e tudo o que ele pode conceber como sábio provém de Deus. Parece estranho no mundo atual, que cultiva a auto-idolatria, esse tipo de afirmação. Bem como a que a precede: “não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes” [Rm 12.16]. É uma verdadeira antítese ao pensamento secular, o qual infelizmente encontra-se disseminado no seio da igreja. Numa época de extremo individualismo, egoísmo, megalomania, consumismo, exibicionismo, e isolamento, como podem os homens ser “fervorosos no espírito, servindo ao Senhor”? [Rm 12.11]. A resposta nos é dada um pouco antes também: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2].



Esquematizando o que foi dito, o amor implicará sempre em:

1) Não ser sábio em si mesmo, por que o homem jamais o será por conta própria, mas sábio em Deus.

2) Não ambicionar as coisas altas, mas acomodar, conformar-se às coisas humildes. Em última análise, humilhar-se diante de Deus e do próximo, não buscando os seus interesses.

3) Servir a Cristo com fervor no espírito; folgando, descansando nEle, a única verdade.

4) Conhecer a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, não se conformando a este mundo. Ou seja, obedecendo-O diligentemente, e não aos apelos da carne.



Fora desse escopo, qualquer sentimento que o homem tenha não será o verdadeiro amor. O exemplo máximo é o de Cristo. Sendo Deus, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz" [Cl 2.7-8].



Alguém pode dizer: mas ele é Deus, e Deus não pode pecar. Para Cristo foi fácil, só que não somos deuses.



É verdade, em parte. Cristo é Deus, mas também homem. A Bíblia é farta em asseverar a dupla natureza do Senhor. Então, não creio que as coisas tenham sido facilitadas para Ele cumprir a Sua missão. O fato é que Cristo foi tentado e não pecou, nem se achou algum pecado nEle; “porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém, um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” [Hb 4.15].



Não entrarei na doutrina da dupla natureza do Senhor. Mas posso afirmar categoricamente que as tentações pelas quais Ele passou não foram de brincadeirinha, nem se armou um teatro com o fim de nos ludibriar; senão, como Cristo poderia se compadecer das nossas fraquezas, derramando Sua graça e misericórdia, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno? [Hb 4.16].



O certo é que Jesus não pecou por ser Deus, mas também por que nos amou, sendo Ele a fonte do amor perfeito, santo e pleno.



Apenas sintetizando o conceito de amor divino: Deus ama os eleitos, os escolhidos, os quais predestinou para serem o Seu povo, e serem conformados à imagem do Seu Filho Amado. Quando digo que Cristo amou, amou exclusivamente os Seus, os que lhe foram dados pelo Pai, os quais nada nem ninguém arrebatará das Suas mãos [Jo 10.28-29].



Algumas considerações sobre Jesus como o Messias:

1) Sendo Deus, tomou a forma de servo, fazendo-se como os homens.

2) Como homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente a Deus Pai até a morte.

3) Sua morte foi para satisfazer a justiça de Deus, mas também por amor aos Seus escolhidos.

4) Cristo conhecia [e conhece] a boa, agradável e perfeita vontade de Deus, conformando-se a ela.

5) A sua obediência reflete o Seu amor ao Pai como aos eleitos.



Logo, o amor do Senhor Jesus pelo Pai e pela Igreja também O impediu de pecar. A tentação que lhe sobreveio não foi suficiente para gerar o pecado; pelo contrário, ele foi bloqueado pelo amor e impedido de se consumar, pois a tentação dissolveu-se antes que a concupiscência pudesse conceber-se, e ela não nascendo, não gerou o pecado nem a morte, a separação de Deus [Tg 1.13-15]. Cristo jamais foi atraído e enganado pela concupiscência, por isso, não pecou, porque é a plenitude do amor. O apetite ou desejo desordenado somente aflorará se naquele solo não houver amor, o antídoto ao veneno em todas as suas formas nocivas de impiedade. Do contrário, se o solo for estéril, sem amor, estará pronto para produzir o pecado, e a dissolução tornar-se-á apenas um vício renitente, insalubre e incurável. Onde há o amor de Deus não há chance para o pecado, sua semente maligna não germinará; antes, permanecendo no Seu amor, daremos frutos para a Sua glória [Jo 15.8-9].



Assim, aquele que ama não peca, nem se compraz na transgressão, nem quer justificá-la com um pretenso amor alheio à natureza de Deus, e que simplesmente é a corrupção da mente humana, desejosa em acomodar-se ao pecado. Desta forma, o crente tem de apresentar o seu corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, mortificando o pecado.



O que nos leva de volta à pergunta inicial: o homem pode amar?



Amor verdadeiro, aquele que procede de Deus, somente o crente tem. O homem natural desconhece-o, e está impedido de tê-lo. Mas isso não quer dizer que o crente amará o tempo todo. Experimentaremos o amor verdadeiro e duradouro na eternidade, onde o pecado não existirá, e não haverá espaço para a afeição desordenada. Lá, seremos semelhantes a Cristo, desfrutando da mesma natureza santa. Enquanto estamos neste mundo, vivenciaremos momentos de amor em menor escala, e de não-amor em maior escala. Mas sempre que amarmos, venceremos o pecado, porque o amor é a negação do pecado; é resisti-lo, não permitindo que domine sobre nós.



Por isso, é impossível o amor verdadeiro aos que não se arrependeram de suas iniqüidades e que vivem a fundamentá-las no anti-amor, o sentimento pernicioso e confuso, o "amor" deletério, o qual apenas servirá para afastar a hipótese de regeneração, ao manter o iníquo desligado de qualquer possibilidade de comunhão com Deus.



Ao tentar esconder-se, na verdade se expõe em sua tola rebeldia.



Como o Senhor nos disse: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor... Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando” [Jo 15.10,14].



Onde há desobediência, abunda o engano e o pecado.



Onde há desobediência, não há amor.



E se não há amor, não se conhece a Deus, nem dEle é conhecido [1Co 8.3].





segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Jovem Rico: Condenado? [Comentário Marcos 10.17-27]








Por Jorge Fernandes

Por causa do texto Velhos e Novos Fariseus entrei novamente no debate sobre o amor divino, se ele é extensivo a toda humanidade ou somente aos eleitos. Os argumentos podem ser lidos nos comentários ao post, inclusive a discussão se Deus tem sentimento e emoção, ou não.

O irmão que levantou a questão de Deus amar a todos citou o trecho de Marcos 10.17-31, reivindicando-o como prova de que Deus ama até mesmo os réprobos. No que, não concordei; e expus parcialmente minhas conclusões à luz do texto.

Como ainda não havia lido nada parecido com a minha interpretação (a qual nem mesmo eu tinha pensado anteriormente, ainda que lesse o trecho por várias vezes), decidi fazer um estudo, e aprofundar-me nela. Especialmente na única parte que não está presente em Mateus 19.16-30 e Lucas 18.18-30 (textos correlatos), o qual é: “E Jesus, olhando para ele, o amou” (Mc 10.21).

A questão é: Jesus amou o jovem rico, e mesmo amando-o, condenou-o ao inferno? O centro da questão é a expressão “o amou”, aoristo derivado do verbo grego agapao[1], empregado para designar o amor de Deus para com o homem.

O versículo completo é: “E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Falta-te uma coisa: vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, toma a cruz, e segue-me” (v.21).

De uma forma geral, e eu mesmo sempre pensei assim, é dado como certa a condenação do jovem, como alguém que não alcançou o Céu. Mas, baseado em quê podemos afirmar tal coisa?

Existe alguma passagem que evidencie claramente a não conversão daquele jovem?

Vejamos algumas declarações na passagem:

1- O jovem demonstrou-se humilde e reverente ao correr até Jesus e ajoelhar-se diante dele, chamando-O "Bom Mestre” (v.17).

2- O jovem quer saber como herdar a vida eterna (v.17).

3- Cristo assevera que apenas um é bom, Deus (v.18). E pergunta-lhe se sabe os mandamentos, citando alguns deles (v.19).

4- O jovem respondeu:"Mestre, tudo isso guardei desde a minha mocidade” (v.20).

5- Após o Senhor dizer que lhe faltava vender tudo, dar aos pobres, tomar a sua cruz e segui-lO; ele, “pesaroso desta palavra, retirou-se triste; porque possuía muitas propriedades” (v.22).

A partir desse relato, sabemos que o jovem rico partiu, e nada mais sabemos dele. Então, por que a maioria dos comentaristas e pastores decidiu-se pela sua condenação irremediável?

Muitos se apegam ao que o Senhor disse aos seus discípulos: “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!... Quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (v. 23-25).

Recapitulando:

1- Cristo o amou, pediu-lhe para dispor os seus bens, e então, segui-lO.

2- O jovem, pesaroso, afasta-se.

3- O Senhor proclama que é muito difícil um rico entrar no reino de Deus.

Onde está escrito que esse jovem não foi salvo? Onde se encontra a garantia de que ele não foi regenerado? E de que não herdou o reino de Deus? A inferência que a maioria faz é de que, como é difícil ao rico herdar o Reino, e aquele jovem teve a sua chance e não a aproveitou, ele foi condenado. A conclusão vai muito além do texto bíblico; na verdade, ela impõe-se ao texto bíblico. Não seria o caso do texto revelar a impossibilidade de alguém obter a salvação por mérito próprio, de, sem a regeneração e o convencimento dado pelo Espírito Santo, alcançar a salvação?

Seria por demais imperioso sustentar a sua perdição. O que está visível e claro é que o jovem, por si só, por suas forças e méritos, não conseguiria a salvação, evidenciando-se que ninguém, por justiça própria (ainda que seja uma mera alegação como a do jovem), pode requerê-la ou obtê-la de Deus.

Alguns pressupostos escriturísticos:

1- Cristo amou a Igreja (Jo 15.9; Rm 8.37; Ef 2.4, 5.2; 1Jo 4.10; Ap 1.5).

2- Cristo morreu pela Igreja, e expiou-a (At 20.28; Ef. 5.25;1Ts 5.10).

3- Cristo não ama os réprobos, pois sobre eles a Sua ira permanece (Jo 3.36; Rm 1.18, 2.5, 9.22; Ef 2.3, 5.6; Cl 3.6;1Ts 2.16).

4- Cristo ama os eleitos, porque sobre eles não derramará a Sua ira (Rm 5.9, 9.23; 1Ts 1.10, 5.9).

Voltando à pergunta inicial, não parece ilógico que Cristo amou o jovem rico, mas ainda assim o condenou? Se Deus é imutável, como pode amar e odiar ao mesmo tempo? Alguém pode alegar: Mas Cristo tem a natureza humana. Sim, é verdade. Contudo, Ele jamais pecou (Hb 4.15, 7.26, 9.14; 1Pe 1.19) e, como Deus, é imutável, porque Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8).

Logo, temos aqui um conflito. Ou Cristo amou aquele jovem, e se o amou, assim como ama apenas e tão somente a Igreja, ele foi salvo. Se Cristo condenou-o, não o amou. Mas o texto diz que Ele o amou, então não há por que duvidar que o jovem fosse alvo da graça divina, que o salvou.

Porém, é possível confirmar isso?

Lê-se: “E eles se admiravam ainda mais, dizendo entre si: Quem poderá, pois, salvar-se?” (v.26).

Diante do que o Senhor disse, os apóstolos, como bons mortais, olharam para si mesmos e não viram a menor chance de salvação. Se aquele jovem dizia seguir os mandamentos, parecia sincero em seu desejo de salvar-se, e havia procurado Cristo com esse objetivo, ao não abrir mão de suas posses, refugou; quais seriam então as suas chances? A pergunta demonstrava o estado de espírito deles: não tinham a menor capacidade de salvarem-se por seus esforços.

Aquele rapaz serviu como o modelo de fracasso humano em se obter êxito próprio diante de Deus. A natureza ímpia em nada ajuda. As boas intenções são infrutíferas. A justiça própria é como trapo imundo. Por maior que seja a vontade, o empenho, a disposição de agradar a Deus, decididamente, restar-nos-á a desgraça. Por que, apenas pela Sua graça, a qual proporcionou a remissão dos pecados pelo sacrifício de Cristo na cruz do Calvário, aos eleitos é possível a salvação. Não há outra maneira. Deus decidiu-se por um único caminho, Jesus Cristo, E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.12). Mas parece que os discípulos ainda não tinham noção do caráter redentor do Senhor entre nós.

Há de se entender também que diante das promessas do AT da abundância de coisas temporais, e da tradição dos mestres judeus em afirmar que os homens ricos eram os escolhidos por Deus, a resposta de Jesus caiu-lhes como uma ducha de água fria. Se o rico não podia entrar, quanto mais os pobres. Porém, ao meu ver, a questão principal não é se ricos ou pobres são mais aceitáveis diante de Deus, mas a completa impossibilidade de tanto ricos como pobres de salvarem-se a si mesmos. Cristo quer que os discípulos concluam que é impossível ao homem, por seus meios exclusivos, escapar da condenação eterna. É o que lhes respondeu:

“Para os homens é impossível, mas não para Deus, porque para Deus todas as coisas são possíveis” (v. 27).

A salvação portanto é um dom de Deus, “para louvor da glória de sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado, em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1.6-7); “porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou” (Rm 8.29.30).

Assim sendo, da mesma forma que muitos inferem que o jovem foi condenado, de minha parte deduzo que Cristo respondeu não somente aos seus discípulos, mas a todos nós, declarando que também aquele jovem, ao qual o Senhor amou, podia ser alvo da graça divina, e salvo finalmente.

O amor de Deus está diretamente ligado àqueles que foram comprados pela morte do Seu Filho Amado. Se um reprovado não foi comprado por Cristo, não há amor. Por que todos fomos feitos um em Cristo, todos somos participantes do Corpo de Cristo, todos fomos eleitos em Cristo, todos seremos semelhantes a Cristo, viveremos e reinaremos eternamente por Cristo. O condenado não participará de nenhuma dessas situações, logo, não pode ser o alvo do amor de Deus, por que ele não está em Cristo, nem Cristo nele.

Concluindo, Cristo amou os eleitos, e não levou sobre Si os pecados de todos, mas de muitos (Hb 9.28); não deu a Sua vida e morreu por todos, mas por muitos (Mt 20.28, 26.28; Jo 11.51-52); não amou a todos, mas a muitos (2Ts 2.15-16); e não rogou pelo mundo, nem por todos, “mas por aqueles que me deste, porque são teus” (Jo 17.9), referindo-se às ovelhas que o Pai eternamente depositou em Suas mãos, a fim de serem infalivelmente resgatadas da condenação eterna.

Cristo amou o jovem rico.

Por que duvidar da sua salvação?

Nota: [1] Agape e Agapao se empregam em quase todos os demais casos no NT para falar do relacionamento entre Deus e o homem - e isto não de modo inesperado, tendo em vista o uso no AT. No caso do subs. agape, porém, não há uso negativo correspondente no NT. é sempre no sentido de he agape tou theou, "o amor de Deus", ou no gen. subsjetivo (i.é, o amor dos homens por Deus), ou com referência ao amor divino por outras pessoas, que a presença de Deus evoca. Desta forma, agape fica bem perto de conceitos tais como pistis -> justiça e charis -> graça, todos os quais têm um ponto único de origem, em Deus somente (Dic. Internacional de Teologia do NT, pg 117 - Editora Vida Nova).

segunda-feira, 21 de abril de 2008

VELOZES...




















Por Jorge Fernandes


“Mas se alguém agir premeditadamente contra o seu próximo, matando-o à traição, tirá-lo-ás do meu altar, para que morra. O que ferir a seu pai, ou a sua mãe, certamente será morto. E quem raptar um homem, e o vender, ou for achado na sua mão, certamente será morto” Êxodo 21.14-16


No relativismo moral em que vivemos, o homem é caça, e refém da sua fraqueza e transigência. O homem ao julgar-se evoluir, apenas revela-se ainda mais débil do que já foi um dia. Estamos rodeados por governos fracos e inoperantes, famílias frágeis e desagregadas, vizinhança fugidia no individualismo medroso de sua própria omissão. O homem é um par de pernas ágeis, ainda que trôpegas, corredias ao esconderijo da covardia. E o troféu ganho pode ser a morte imediata, ou a impunidade, seguida de morte. Entre bandidos e mocinhos, ninguém se salva. Todos são culpados: os que matam, e os que se deixam morrer. Não há inocente, ainda que todos sejam vítimas. Todos são criminosos, mesmo que somente uma minoria seja condenada. A sociedade agoniza, como um doente terminal... Já se ouvem os últimos suspiros... mesmo que a esperança venha em minúsculas cápsulas de açúcar... Fatalismo? Realidade? Delírio?
Olhe ao redor. Abra os olhos, as narinas, os ouvidos. Veja. Cheire. Ouça. Ainda que Deus tenha criado um mundo maravilhoso, ordenado, funcional e aprazível, os resultados da “obra humana” encontram-se espalhados como vermes no monturo: feiúra, caos, desconforto. A Queda do homem proporcionou o colapso do mundo. O pecado foi e é o propulsor para o que vemos e não suportamos ver, para o que cheiramos e não suportamos cheirar, para o que ouvimos e não suportamos escutar, para o que não tocamos e suportamos não tocar. A humanidade decaí, minuto a minuto, morinbunda, sujeitando-se à sua inevitável impiedade.
Os jornais estampam a nossa vergonha. Publicam a nossa sordidez. Dissecam a nossa pobridão. Os corpos há muito estão despojados. A alma, cativa. Prazerosos, entregues ao algoz, pelejamos pela morte, como se viver fosse martírio.
Pais descuidados, filhos rebeldes, mestres inescrupulosos, alunos indolentes, maridos e esposas infíeis, sexo leviano, contratos inexequíveis, governos polutos... a refletir o que há de mais marcante na natureza humana: o ódio a Deus.
Não se engane. A idéia que você tem de Deus pode ser qualquer coisa, menos Ele. O que foi-lhe dito, pode trazer-lhe algum alívio, temporário e fracionado, pode trazer-lhe até mesmo uma espécie de conforto, mas ao confrontar-se com a verdade divina, descrita e pormenorizada na Bíblia, o que você sente? Desdém? Ira? Aversão? Abandona-a completamente? Ou como num self-service, colhe apenas e tão somente aquilo que não fere a sua consciência? Será possível agradá-lO sem obedecê-lO? E honrá-lO sem segui-lO? E glorificá-lO sem nos negar?
“Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me” (Mt 16.24).
A maioria das pessoas, ao ler este versículo, vê-o como um alívio para os seus problemas. Já ouvi muitas interpretações, e quase todas nos dizem para levar a nossa cruz e seguir ao Senhor, do jeito e como der. Quase todos se esquecem de que, não é possível seguir ao Senhor se não “renunciar-se a sim mesmo”. Em Mc 8.34 e Lc 9.23, lemos: “negue-se a sim mesmo”. E as palavras negar ou renunciar têm o mesmo significado. Não é uma negação simbólica, alegórica, irreal. Antes, é a recusa efetiva, é negar a nossa natureza pecaminosa, caída e depravada.
Você pode perguntar: “O que isso tem a ver com a sua exposição inicial?”. Respondo: “Tudo!”. O fato do homem encontrar-se em um beco sem saída, como o cão a caçar o próprio rabo, é que não há nem nunca haverá solução para ele e a humanidade em si mesmos. Enquanto iludirmo-nos de que podemos (mesmo que seja num futuro longinquo, fictício) consertar os erros criados por nós e nossos semelhantes; enquanto nos apegarmos a idéias utópicas de que o homem é bom, e basta um esforço para encontrar essa bondade nele, e de que é capaz de dividi-la com o próximo, a sociedade e o mundo (mesmo que não saiba onde ela está, e mesmo que defina sempre o próximo como ele próprio); enquanto continuarmos olhando para nós com autoindulgência e comiseração, e nos fazermos de pobres-coitados, de injustiçados, de vítimas oprimidas pelo sistema (seja lá o que isso representa); enquanto não olharmos para nós mesmos, não com os olhos encobertos pela dissimulação, pelo engano, mas olharmos para o que Deus nos revela sobre nós, estaremos irremediavelmente perdidos, obliterados pela cegueira.
É tempo de ver. E não de camuflar. É tempo de agir. Não como um piqueteiro inconsequente atirando pedras nos “fura-greve”. Não como alguém que vê somente o erro alheio. Como alguém que tem salvoconduto para a acusação. Deixar de olhar para a própria iniquidade, faz-nos odiosos diante de Deus. E os outros homens ver-nos-ão apenas como mais um inimigo, o qual se deve destruir (a destruição não somente física, mas psicológica, emocional, financeira...).
No tempo em que o temor a Deus está perdido, onde o homem relativiza tudo, onde ele mesmo não se julga culpado por nada, onde os outros são solidários em meus crimes apenas para que os seus também sejam absolvidos, onde “as verdades” são sofismas que nos levam à perdição, o homem precisa encarar o fato do que é: o próprio mal.
Estigmatizamos o diabo, e ele tem a sua culpa. Blasfemamos contra Deus, o que é abominável. Julgamos interiormente o próximo, ainda que não o façamos exteriormente, por vergonha de nós mesmos. Somos incapazes do auto-juízo, ainda que sejamos julgados, mais cedo ou mais tarde por Deus.
“E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27).
E o amor de Cristo, que nos constrange (2Co 5.14) é o único capaz de nos afastar de nós mesmos e da nossa natureza, e do mal que habita em nós. E de nos tornar possíveis para o próximo, para o mundo, para nós. Sem Cristo, somos incapazes de amar, da mesma forma que a areia jamais amará a pedra. Ao contrário, se O conhecemos, estamos reconciliados com Deus, e seremos cheios da Sua plenitude (Ef 3.19), e a vida se abrirá para nós, e sepultaremos, definitivamente, a morte.
“Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte” (Jo 8.51).
Quanto ao homem natural, irreconciliável, rebelde, malévolo, resta-lhe a punição, a fim de se resguardar a vida, de tão alto valor, mas tão aviltada na atualidade. E que a sociedade, como remediadora (e não mediadora), corrija o mal praticado, e não seja cúmplice dos nossos crimes.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

CUMPRA-SE!












Por Jorge Fernandes

"O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida... O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. Estas coisas vos escrevemos, para que o vosso gozo se cumpra” (1Jo 1.1;3).


O apóstolo João foi testemunha ocular das maravilhas que Cristo nosso Senhor realizou aqui na Terra. E no momento de maior sofrimento do nosso Salvador, no Calvário, quando estava expiando os pecados do Seu povo, da Sua Igreja, João também estava lá. Imaginemos a dor que o discípulo amado sentiu ao ver o Seu Senhor morrer na cruz. Ao vê-lo humilhado, padecendo, o corpo marcado por açoites, por ferimentos, o sangue escorrendo através dos cravos, através dos espinhos com os quais o “coroaram”; o Seu lado vertendo água e sangue; ouvindo as blasfêmias, os insultos e o escárnio dos judeus e romanos, os quais zombavam do Mestre.
Mas esses não foram os motivos pelos quais o Senhor mais se afligiu. É claro que como homem, Jesus Cristo sofreu na carne, na pele; lançaram-lhe em rosto a abominação de toda a maldade existente na alma humana; mas, certamente, a maior angústia pela qual o nosso Senhor passou foi a de carregar os pecados de todos aqueles que seriam remidos pelo Seu sacrifício. Jesus, o Deus-Filho eterno, sem o qual nada do que foi feito se fez (Jo 1.3), o santo, puro, imaculado e justo, levou sobre si toda a nossa iniquidade, todos os nossos pecados, carregou a nossa natureza caída; e, ali no Calvário, Ele expiou-nos, reabilitou-nos pelo Seu castigo, livrando-nos da ira de Deus, e reconciliando-nos com Ele.
Provavelmente, João ainda não entendia isso. Mas ali, diante da cruz, testemunhou o sacrifício do Santo de Deus. E testemunhou o sepulcro vazio, os lençóis no chão, e o lenço enrolado num lugar à parte; e viu, e creu (Jo 20.5-8). E em outras ocasiões, João viu, tocou, foi tocado e falou com o Senhor após a Sua morte e ressurreição (Mt 28.17-18; Mc 16.14; Jo 21.7; At 1.1-9; Ap 1.17-19).
Por isso, ele nos escreve, anunciando que o seu testemunho é para a nossa comunhão com os santos e com Deus; para que o nosso gozo se cumpra (aqui, "o nosso gozo" é tanto o do apóstolo João, como o meu, o seu, como o de toda a Igreja, mas também é o de Deus).
É fantástica a forma como o Senhor cuida de nós, como Ele se preocupa com os mínimos, e muitas vezes, desapercebidos detalhes. Deus reservou para o Seu povo, para as Suas ovelhas, o gozo, o prazer de usufruirmos da comunhão consigo mesmo. Ele poderia nos reservar apenas a salvação (o que já é indescritível, visto o tamanho e a intensidade de nossos pecados e iniquidades), fazer-nos escravos e sujeitos unicamente à Sua autoridade e Senhorio. Mas Deus nos ama, e quer que tenhamos gozo, que desfrutemos Dele e de toda a Sua glória.
Em João 17.13, Jesus diz: “Mas agora vou para ti, e digo isto no mundo, para que tenham a minha alegria completa em si mesmos”. Deus quer que tenhamos em nós, completamente, a Sua alegria. E o que é essa alegria? Em Atos 13.52, Lucas nos diz: “E os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo”. Paulo complementa em Rm 14.17: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”.
Vemos então, que a alegria a qual o Senhor Jesus se refere é a alegria do Espírito Santo. É Ele que nos revela a nossa iniquidade (o que nos enche de profunda tristeza - Ef 4.30; 2Co 7.10), mas Ele mesmo nos consola mostrando-nos o perdão em Cristo (1Jo 1.9); abrindo-nos os olhos para as maravilhas que Deus tem guardado para aqueles que não são negligentes, mas são imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas divinas (Hb 6.12).
Cristo, o justo, morreu por nós, os injustos, para levar-nos a Deus (1Pe 3.18); e na comunhão que temos com Ele, em obediência, é que se encontra a totalidade do nosso prazer; e é assim que deve e deveria ser.
Em Jo 15.9-11, Cristo diz: “Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor. Tenho-vos dito isto, para que o meu gozo permaneça em vós, e o vosso gozo seja completo”.
O gozo ao qual o Senhor fala não é uma mera manifestação de sentimentos. Não é um fluxo momentâneo ou um estímulo fugaz, nem mesmo um arrepio ou uma sensação de súbito frescor. O gozo ao qual as Escrituras se referem é um gozo perene, longevo; em nós implantado diariamente pelo Espírito Santo, e que, muitas vezes, se manifestará nas dificuldades e reveses da vida; porque não nos gloriamos apenas na esperança da glória de Deus, mas nos gloriamos igualmente nas tribulações (Rm 5.2-5). Portanto, se o nosso gozo fosse apenas reservado aos momentos de alegria, não seria completo. É isso que o Senhor diz. Que a alegria independe do instante, podendo manifestar-se ao ganharmos um presente, como ao sermos perseguidos. Se ocorre apenas em uma das situações, o gozo está incompleto, e não provém de Deus. Devemos entender que Deus nos abençoa de múltiplas formas, tanto na alegria como na dor; e é no sofrimento que, muitas vezes, vislumbramos a face do nosso misericordioso Senhor.
A fonte para que o gozo se realize totalmente em nós é a obediência a Deus. O Senhor Jesus guardou os mandamentos do Pai e teve gozo. E o Senhor nos ordena a guardar os Seus mandamentos para que também tenhamos gozo, e que ele seja completo. O princípio é o da obediência, de não apenas ouvirmos, mas de praticarmos aquilo que o nosso Mestre supremo nos ordenou.
Guardar os Seus mandamentos é reter a Palavra da Vida, o próprio Cristo, em nós; a fim de nos mantermos Nele e Ele em nós, e permaneceremos no Seu amor. Jesus usa o exemplo da videira, onde Ele é a videira verdadeira (a única, não havendo outra; sendo as demais falsificadas), o Pai é o lavrador e nós somos os ramos. E de que o Pai é glorificado quando nós, os ramos, damos muito fruto; e assim, seremos recebidos como discípulos do Seu Amado Filho (Jo 15.1-8).
O gozo, portanto, é o sacrifício de Cristo na cruz; a alegria da salvação; é desfrutar do Seu perdão e do Seu imenso amor; é viver cheios do Espírito Santo; é obedecermos os Seus mandamentos; é glorificá-lO tanto na alegria como nas tribulações; é darmos frutos para a Sua glória, testemunhando as maravilhas que Ele fez em nós. E conforme o apóstolo João disse: isso anunciamos para que tenham, também, comunhão com os santos.
Somente assim, Cristo será gerado e permanecerá em nós, “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós... para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja” (Jo 17.21;26); e o nosso gozo se cumpra.